O&G não precisa importar engenheiros, defende o Crea-RJ Imprimir
Sex, 08 de Fevereiro de 2013 16:48

Em entrevista, presidente do Conselho, Agostinho Guerreiro, defende que oferta atende demanda atual

Energia Hoje / Por Ricardo Vigliano

O Brasil vem aumentando a oferta de engenheiros, mas num ritmo menor que o crescimento da demanda do setor de O&G. Para o presidente do Crea-RJ, Agostinho Guerreiro, contudo, a carência por mão de obra não justifica flexibilizar a entrada de estrangeiros. Em conversa com o Energia Hoje, Guerreiro relata que a quantidade de engenheiros ilegais e clandestinos vem crescendo no Brasil e alerta para as possíveis conseqüências desse cenário: "O profissional que exerce a profissão de forma ilegal não tem compromisso com o país e isso reflete na qualidade do serviço. Além disso, ocupa a vaga de um brasileiro no qual o país investiu dinheiro para formar".

Para Guerreiro, carência do setor de O&G não justifa flexibilização da entrada de estrangeiros (Marcus Almeida)

 

Faltam engenheiros para o setor petróleo?

É um setor que cresce muito, sobretudo após o pré-sal. Porém, existe uma demanda concreta para preparar a exploração e uma demanda esperada, diante da magnitude da descoberta, mas isso tem que ser colocado no tempo e no espaço.

 

A demanda já está atendida?

Estamos em uma fase intermediária. Houve duas décadas perdidas, quando caiu muito a formação de novos engenheiros. A evasão média nas universidades chegou a 50% e as matrículas caíram 60%. No mundo a evasão média é em torno 30%.

 

Como está esse quadro?

Vem melhorando. Já aumentamos a oferta em 20%.

 

Isso equilibra oferta e demanda?

Não, porque foi um crescimento de 20% para todas as especializações da engenharia. Boa parte foi para projetos de habitação e infraestrutura do governo. O setor petróleo não perdeu, mas ganhou num ritmo menor.

 

Ainda há falta?

A ponto de flexibilizar a entrada de estrangeiros, não.

 

Então por que o governo fala nisso?

O governo quer ter sempre um estoque grande de mão de obra especializada. é um custo importante em qualquer economia. O Brasil se habituou a ter mão de obra farta e barata. Tanto que o engenheiro de uma estatal ganha menos que o piso da categoria.

 

Onde?

Não é raro ver um engenheiro ganhando abaixo do piso em empresas como a Eletrobras e Eletronuclear.

 

Como?

É engenheiro, mas está na função de Assistente Técnico Especial.

 

Qual a vantagem de trazer o estrangeiro então?

Você tem uma mão de obra disponível a um preço considerado razoável.

 

O estrangeiro ganha menos?

O grande problema do profissional estrangeiro que vem para o Brasil não é ganhar mais, mas sobreviver. Na Europa em geral e, sobretudo em Portugal e na Espanha, os engenheiros estão desempregados ou fazendo outras atividades para sobreviver.

 

Mas não existem áreas em que o estrangeiro poderia agregar?

Existem carências mais fáceis de identificar, como na engenharia eletrônica. É um profissional que já se forma com o emprego garantido e ganhando bem. Os que não se colocam aqui vão para os EUA onde são bem recebidos. Não sobra ninguém. Nesse caso, vejo como um reforço bem vindo, mas não precisa flexibilizar nada. Não se desregulamenta em uma canetada uma Lei que está aí há anos.

 

O governo já disse como será a flexibilização?

Não. O que a gente entende é que será algo como a dispensa de licitação para as obras da Copa do Mundo. Vão criar uma lei que não se sabe exatamente o que é e o que vai acarretar.

 

O que pode acarretar?

A quantidade de engenheiros ilegais e clandestinos já é bastante grande no Brasil. O clandestino entra como turista ou para um trabalho de três meses e fica. O ilegal é aquele que não é engenheiro e está exercendo atividades de engenharia. É difícil fiscalizar porque grande parte das empresas procura camuflar.

 

Isso acontece no setor de Óleo & Gás?

Sim. Em 2012, em um mês de fiscalização com o Ministério do Trabalho e a Polícia Federal, identificamos 100 irregularidades no Rio de Janeiro, incluindo empresas do setor. Se com todas as dificuldades colocadas pelas empresas detectamos cem casos em apenas um mês, pode multiplicar isso por pelo menos dez.

 

Qual é o maior risco?

O profissional que exerce a profissão de forma ilegal não tem compromisso com o país e isso reflete na qualidade do serviço. Além disso, ocupa a vaga de um brasileiro no qual o país investiu dinheiro para formar.

 

As empresas preferem importar?

Sim. São empresas que tem matriz no exterior e sofrem penalidades pesadas se demitirem, sobretudo na Europa, onde a maioria dos governos é social democrata. Então é preferível deslocar o profissional para países como o Brasil.

 

O MTE avalia a disponibilidade de profissionais no Brasil antes de conceder o visto?

Normalmente, a legislação é mais flexível para o trabalho temporário de até seis meses. O problema é que a maioria não se legaliza.

 

Por quê?

Por economia, para evitar mais um dispêndio a mais, para ter uma margem de manobra maior, ficando semiclandestino e prorrogando o tempo de estadia. Nesse momento em que estamos recuperando o número de estudantes não acho interessante flexibilizar.

 

Mesmo para a indústria do petróleo?

O crescimento no Óleo & Gás é inevitável, mas não é de curtíssimo prazo. O petróleo do pré-sal está muito longe e profundo. Existe uma logística que precisa ser equacionada antes. É coisa para dez anos. A flexibilização seria um mau exemplo para a sociedade e um desprezo pelo desenvolvimento que o Brasil está construindo, sobretudo nessa área.

 

E nas engenharias mais específicas?

Em casos pontuais, a flexibilização já existe e é aceita. Para a transferência de tecnologia existe uma compreensão generalizada. Desenvolver uma turbina aeronáutica é um negócio muito complexo, mas vamos precisar ter a turbina brasileira um dia. Isso já vem ocorrendo de forma transparente. Não precisa mudar a legislação. Existe uma burocracia trabalhista, mas que não difere das demais no país, que é essencialmente burocrático. Vamos nos livrar dela com o passar do tempo.

 
 

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