Salários e muito mais Imprimir
Ter, 13 de Novembro de 2012 07:49

Efeito da expansão do setor no mercado de trabalho envolve novas políticas de promoção e criação de mais níveis hierárquicos.

Os salários altos não são o único reflexo do aquecimento da indústria de óleo e gás no Brasil. Progressão acelerada nas carreiras, criação de novos níveis hierárquicos, demora nas contratações, alta rotatividade e admissão de recém-formados e aposentados para preencher vagas consideradas críticas também compõem a fotografia do momento no mercado de trabalho no setor.

A rápida ascensão é uma característica marcante nesse setor, atesta o consultor Sênior da Towers Watson, Gilberto Cupola. Ele cita como exemplo um técnico de completação que está no último nível da carreira em uma companhia de serviços e é contratado por uma operadora de plataforma para ser supervisor de sonda. "Ele pode ingressar na nova empresa em um nível acima do inicial, mesmo sem a experiência necessária, em função do alto salário que tinha no emprego anterior", explica.

Segundo levantamento da Towers Watson, especializada em plano de carreira e políticas de remuneração variável, algumas empresas chegam a criar novos níveis de carreira para acomodar os salários mais altos. Há casos na área de geologia e geofísica em que a carreira foi alongada de três para até sete níveis. E o fenômeno, diz Cupola, atinge companhias nacionais e estrangeiras. "As empresas estão sendo obrigadas a flexibilizar políticas de cargos e salários para se adequar às exigências de conteúdo local e prazos contratuais."

De acordo com o CEO da Petra Executive Search, Adriano Bravo, há profissionais que em oito anos atingem o primeiro escalão de empresas. "Se esse profissional tem algum perfil voltado para negócios, ele consegue concluir um ciclo inteiro de carreira em menos de dez anos", comenta, acrescentando que essa situação é evidente entre fornecedores de equipamentos. "As empresas estão precisando de profissionais de outras indústrias porque eles simplesmente não existem."

Bravo ressalta que, na Petrobras, engenheiros já ocupam cargos executivos. "Se atender a prérequisitos como inglês fluente, aptidão para a área de negócios e um perfil técnico balanceado com analítico, esse engenheiro completa o ciclo em 10 a 15 anos", estima. A falta de especialistas causou certa turbulência no mercado, sobretudo nos últimos dois anos, com a chegada de muitas empresas estrangeiras no Brasil e a necessidade urgente de profissionais para desenvolver negócios. "Com isso, os salários que eram medianos inflaram, e os dos bons profissionais dispararam", acrescenta Bravo.

Para o sócio da consultoria PwC, Marcos Panassol, a restrição na oferta de profissionais no setor está afetando em particular as companhias estrangeiras que têm projetos para fabricar equipamentos de menor valor agregado no Brasil, como aqueles que são mais periféricos em projetos de plataforma, por exemplo. "Essas empresas já têm margem reduzida em função da concorrência e acabam tendo de apertar ainda mais o projeto para comportar salários que já estão inflacionados", explica.

Outro agravante é que posições de gerência nessas empresas requerem profissionais que sejam do setor. "Dificilmente você vai ver um presidente de uma empresa de drilling que não tenha vindo da área", afirma o consultor.

Com uma carteira de serviços que inclui consultoria de risco, gestão de processo e consultoria tributária para clientes de óleo e gás, em especial operadoras, a PwC sente na própria pele a aceleração das carreiras. "Estamos perdendo consultores que estão sendo promovidos a gerentes e gerentes que estão sendo promovidos a diretores nas empresas para as quais prestamos serviço", revela Panassol.

Recrutamento demorado

O gerente da área de Oil & Gas da empresa de recrutamento Hays, Raphael Falcão, conta que contratar profissionais típicos do setor, como engenheiros de perfuração e de reservatório e geólogos e geofísicos, pode demorar quatro vezes mais do que a média. "Um dos motivos é que nessas posições não é possível adaptar profissionais de outras indústrias, como siderurgia e papel e celulose", esclarece.

O processo também se arrasta em função da posição privilegiada alcançada por esses profissionais no país. "Muitos candidatos promovem um leilão salarial, levando a proposta de uma empresa para outra e vice-versa, o que acaba atrasando todo o processo", revela Falcão. No campo operacional, a escalada de salários na perfuração é um capítulo à parte. Segundo Bravo, a tripulação já representa 70% da taxa diária de uma sonda contratada pela Petrobras. No exterior, esse peso é de 50%. "Você não vê um profissional de operação com menos de 30 anos de idade ganhando R$ 26 mil por mês em outras indústrias", comenta.

Para Panassol, o custo e o risco de expatriar um profissional estrangeiro para trabalhar no Brasil é um dos fatores que pressionam salários aqui. "Quando a empresa coloca na ponta do lápis o custo para trazer e alojar esse profissional, acaba optando por pagar um pouco mais a um brasileiro, ainda que ele não tenha alcançado o nível desejado para a posição", observa.

A valorização do profissional também está associada ao aumento de escala dos projetos no país. Um geólogo, uma função quase apagada há alguns anos, passou a ser um elo estratégico na avaliação de reservas de petróleo gigantes, que envolvem investimentos de bilhões de dólares. Já na construção naval e offshore, os requisitos crescentes de segurança operacional e meio ambiente estão tornando engenheiros e projetistas ainda mais críticos para os projetos.

Na falta de profissionais, muitas vagas acabam sendo preenchidas com recém-formados ou aposentados. Outro fenômeno é a repatriação de profissionais do exterior. Segundo levantamento da Hays, a porção de brasileiros expatriados no setor caiu de 20% para 11% em 2011. No mundo, a média é de 42,5%.

Na experiência da Hays, a contratação de estrangeiros para compensar a escassez de mão de obra local é quase nula em função dos requisitos de conteúdo local. De acordo com Falcão, é muito difícil um cliente abrir uma vaga no Brasil para ser ocupada por um estrangeiro, sobretudo nas empresas estrangeiras. "A maioria delas já estão no limite do conteúdo importado", justifica.

A pressão só não é maior entre as estrangeiras porque muitas ainda estão iniciando operação no Brasil com pequenas estruturas, que demandam mais profissionais das áreas comercial e administrativa. Nesse caso, a preferência é pelos brasileiros, que falam a língua e conhecem o setor.

Bravo acredita, porém, que a vinda dos estrangeiros é questão de tempo. "No momento em que houver uma regra clara sobre a temporalidade da utilização desse estrangeiro que não afete o conteúdo local, esse profissional será usado amplamente", prevê, alertando para pelo menos um gargalo. "Já se fala no mercado que, se todas as embarcações projetadas para o pré-sal forem construídas, nem todas vão zarpar, por falta de tripulação."

Os estrangeiros também poderão ser cruciais na construção de topsides das embarcações e nos equipamentos submarinos de produção. "Esses projetos vão demandar muitos engenheiros e técnicos especializados, e o Brasil continua vivendo uma restrição na oferta de engenheiros e na formação profissionalizante", avalia Bravo, acrescentando que a mão de obra importada também poderá balancear a escalada dos salários. "Esses estrangeiros viriam para ganhar o mesmo ou até um pouco menos em alguns casos", calcula.

Salários no pico

Segundo a última pesquisa salarial da Hays, os salários no setor de óleo e gás no Brasil cresceram em média 27,6% em 2011, enquanto a média mundial foi de 6,13%. A média brasileira supera com folga a média registrada nos três levantamentos anteriores, quando o percentual variou de 7% a 10%.

O pico foi influenciado pela grande quantidade de projetos de EPC para plataformas e refinarias. "A área naval no Brasil ainda é muito fraca. É preciso montar toda uma base de profissionais para atender à demanda da Petrobras", explica Falcão, que também atribui o incremento a uma forte mobilização das empresas de E&P na expectativa da realização da 11ª rodada da ANP.

A alta na curva salarial é impulsionada sobretudo pela rápida expansão das operações. Entre 2006 e 2012, chegaram ao Brasil mais de 50 embarcações offshore, entre sondas e plataformas. Cada unidade requer em média 150 tripulantes, o que representou uma demanda adicional de mais de 7 mil profissionais.

A enxurrada de vagas em um período relativamente curto também acirrou a disputa pelos profissionais na indústria offshore, estimulando a rotatividade. Enquanto a média mundial está em 22% de transferências, no Brasil esse percentual é de 25%, chegando a 30% no segmento de perfuração.

A dinâmica também está mexendo com os salários iniciais. Um engenheiro recém-formado no Brasil já ingressa no setor recebendo um salário-base 30% maior que em áreas tradicionalmente bem remuneradas, como química e agroquímica.

Fonte: Revista Brasil Energia

 
 

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